Sunday | November 18, 2007

Uma família feliz

Naquele tempo o meu pai contava-me muitas histórias de gigantes. Eu queria adormecer sozinho, de maneira que ele sentava-se na minha cama entretinha-me enquanto não chegava o João Pestana. A verdade é que o meu pai não sabia as historias de cor que e ia inventando, a medida que ia cotando. Algumas histórias, que começavam sempre com «Era uma vez um gigante», desconfio que ele as inventou de uma ponta a outra.


Mas a partir do momento em que a história era contada eu não admitia variantes. Queria ali todos os pormenores. Acho que todos os miúdos tem esta atenta memória que contradiz e mete na ordem os adultos contadores, quando são distraídos.

Pois naquela altura saltitava lá por casa um coelhito malhado. Não era desses coelhos anões, cinzentos e cheios de peneiras, armados em fidalgos, que se vendem agora nos centros comerciais. Não. Era um robusto coelho do campo, muito curioso, de narizito sempre a farejar, grande apreciador de cenouras.


Houve alguém que nos ofereceu aquele coelho, no pressuposto de que o destinaríamos à panela, com batatas e ervas cheirosas. Mas naquela nossa casa não havia ninguém capaz de sacrificar um animal, para mais simpático e dado ao convívio.

De início, ficou numa marquise. Todas as manhãs, quando se abria a porta da marquise vinha cumprimentar-nos, farejando-nos os pés e empinando-se a olhar para nós. Não tardou que circulasse por toda a casa e me fizesse companhia naquelas brincadeiras que demoravam o dia inteiro.


Era um coelho extremamente asseado. Tinha lá o seu sítio de recolhimento e fez questão de nunca deixar noutro lado aquelas bolinhas pretas e redondinhas que os coelhos costumam distribuir. E bom companheiro que ele era. Tinha imenso jeito para andar nos carrinhos, ajudava a descarrilar o comboio de brinquedo, e admirava com sinceridade, as maravilhosas obras de engenharia que eu construía com o meu «Meccano».


Eu já deixara de invejar os outros miúdos que tinham cães e gatos nos quintais. Nenhum se comparava ao meu coelho, nem sabia brincar com tanta classe.


Os homens são ingratos. Quando crescem, ainda mais. Imaginem que eu me esqueci completamente do nome do meu coelhinho. Certo é que ele acudia aos chamamentos e vinha de onde estivesse, saltitão, com tufo peludo do rabito no ar. Eu podia agora improvisar um nome e fazer de conta que o bicho se chamava, por exemplo, «Pinóquio» ou «Lanzudo». Mas não quero inventar nada. Quero contar tudo como era. Esqueci-me do nome, passou-me, pronto!


Mas... um dia comecei a ouvir os adultos a segredar, lá em casa. Desconfiei logo que se tratava do meu coelho, e era mesmo. Um amigo, possuidor duma quinta, tinha-se oferecido para instalar o bicho no campo e os meus pais - com aquele irritante bom senso que compete aos mais crescidos - haviam considerado a proposta interessante. Sempre era melhor para o animal andar em liberdade, ao ar livre, entre arvoredos, na companhia dos seus iguais e das aves de capoeira. E quando eu protestava, com muita força, limitavam-se a abraçar-me e sorrir.


E lá levaram o coelhinho, aproveitando uma distracção minha. O que eu barafustei! Foi um tremendo desgosto. Ao deitar, não quis ouvir histórias de gigantes. Durante toda a noite chorei e exigi a devolução do meu companheiro. Em vão.

Espero que ele tenha sido feliz lá na tal quinta. Ainda vejo um orelhudo malhado a saltitar, pataludo, com os olhos vivos e o nariz sempre em acção, consolo-me sempre com a ideia de que pode ser um dos descendentes daquele saudoso coelhinho da minha infância. E quando contar aos meus netos histórias de gigantes, talvez introduza nos contos as peripécias de um herói orelhudo.


Continuação

 

O coelho não gostou de estar na quinta todos tratavam muito mal e ele decidiu fugir. Pegou nas suas malas e foi-se embora.


Os animais da quinta ficaram todos preocupados porque eles gostavam mesmo dele.


Já estava a caminho do porto para ir descobrir o mundo.


Estava na paragem e o autocarro chegou e uma coelha que estava prenha não conseguia subir o degrau e o coelhinho perguntou:


- Precisa de ajuda?


- Sim, se faz favor, - disse a coelha e concluiu - muito obrigado pela a ajudinha.


O coelhinho perguntou:


- Queres ir ao café do Tico?

E a coelha respondeu:

- Pode ser, mas tenho de ter cuidado para não prejudicar os três coelhinhos.

- Está bem. - disse o coelho.

Quando chegaram o coelho disse:

- É aqui que saímos.

Depois foram para o café e o coelho perguntou:

- O pai quem é?

A coelha respondeu:

- Ele morreu, foi um caçador que o matou.

E, assim, de repente, o coelho perguntou:

- Queres casar comigo?

- Sim, quero.

E foram felizes para sempre com os seus três coelhinhos.

Posted by LEnes at 19:10:39 | Permanent Link | Comments (0) |

Sunday | November 11, 2007

Dia do não fumador

Porque gosto da minha saúde
Sou um não fumador
Quero que o meu coração bata
Como um despertador.
 
Meus dentes branquinhos estão;
Por isso digo ao fumo que não!
Meus pulmões tão limpos são,
Não os sujo com o carvão.

Longos anos quero viver,
fumador não quero ser;
Quem fuma pede a morte.
Mas eu não! Quero ser forte!

Posted by LEnes at 14:17:47 | Permanent Link | Comments (0) |